Teatro, Cracolândia e Eugenia

(fonte: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=10&i=6719)

Notícias dos subterrâneos

14/05/2010 16:34:35

Por Camila Alam
*Reportagem originalmente publicada na edição 595 de CartaCapital

No centro de São Paulo, próxima à Estação da Luz e à Praça Júlio Prestes, uma rua estreita e pouco movimentada abriga a sede do grupo de teatro Pessoal do Faroeste. A fachada discreta do prédio de três andares na alameda Cleveland, pintada de preto, quase não dá conta de mostrar que ali, há quatro anos, são montadas, encenadas e apresentadas peças dessa companhia. Uma pequena placa, acima do portão de entrada, mostra o nome do grupo entalhado em madeira. Desde o dia 8, a Cia. Pessoal do Faroeste (nome surgido em 1998, após a montagem de Um Certo Faroeste Caboclo, inspirada na música de Renato Russo) apresenta nesse espaço a Trilogia Degenerada e espera atrair olhares não só para o teatro como para o bairro em que ele está inserido.

Abrigada em uma das regiões de maior conflito social de São Paulo, a Cracolândia, a companhia faz uso da realidade da cidade em suas peças. A trilogia que toma o espaço até julho aborda a construção da capital paulista a partir da formação de sua população. Tema comum às três peças é a eugenia, a controversa busca por “aprimoramento” da espécie humana por meio da “seleção artificial”. A ideia, cunhada pelo antropólogo inglês Francis Galton em 1883, determinaria as circunstâncias do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial.

O Pessoal do Faroeste usa esse conceito de maneira ampla e delicada para incitar o debate sobre a revitalização do centro, projeto chamado pela prefeitura de Nova Luz. O bairro é um dos personagens das tramas, escritas pelo diretor e ator da companhia, o paraense Paulo Faria. Nele está inserido outro personagem, um antigo casarão que exemplifica toda a região. Foi inspirado no que hoje abriga o Museu da Energia, vizinho ao prédio do teatro. Na São Paulo verdadeira, ele pertenceu à família de Santos-Dumont, virou manicômio na década de 1950 e um cortiço nos anos 2000, para mais tarde ser reapropriado como museu. Esta é a sequência que serve de cenário para as três peças.

Os Crimes do Preto Amaral se passa em 1927 e narra a história real de José Augusto do Amaral, morto na prisão antes de ser julgado pelo assassinato de garotos. A peça foi baseada na tese de doutorado do historiador Paulo Campos. Ele defende que Amaral foi preso sem provas, julgado verbalmente pela cor de sua pele. Nesta obra, o elenco, formado por Eduardo Gomes, Iratã Rocha, Mariza Junqueira, Neusa Velasco, Paulo Faria e Thaís Aguiar, se divide entre aqueles que apoiam a condenação de Amaral (vivido por Rogério Brito, único ator negro da companhia) e aqueles que buscam a sua defesa. Por vezes, os personagens assumem papéis diferentes em flash-back e mostram um interessante jogo de cena que narra os crimes.

As peças são apresentadas em sequência. O espectador pode optar por ver as três de uma vez ou assistir em separado. Um intervalo de 30 minutos e um salto na história levam a plateia a 1944, em Labirinto Reencarnado. Esta narra a história de Ícaro, um integrante da Aeronáutica brasileira que passa integrar a juventude hitlerista. Seu pai, Dédalo, é um cristão-novo e geneticista. Nesse embate, são discutidas as experiências eugenistas, tanto as nazistas quanto as realizadas pelo próprio personagem no Brasil. Nesse ponto, Dédalo é encenado por Brito, com o rosto pintado de branco.

Um diálogo em flash-back entre pai e filho exemplifica o pensamento eugenista por meio de uma metáfora com abelhas. “A peça usa o realismo fantástico. Fala de São Paulo da década de 40, mas também de como o País se alimentou da guerra, mesmo ela não tendo acontecido por aqui”, diz o diretor. No último momento, o elenco entra em cena com Re-Bentos, que se passa no começo dos anos 2000. É, talvez, o espetáculo que mais aproxima o público da realidade atual de São Paulo. O sentido de aproximação também é físico, já que o espectador adentra o espaço cênico por meio de uma arquibancada móvel. São trazidos à tona temas como a ocupação de espaços urbanos, o tráfico de drogas e políticas públicas.

Fora do palco, esses temas serviram de base para pesquisa durante oito anos. As três peças foram encenadas em outros espaços que a companhia ocupou e agora são montadas juntas. Segundo Paulo Faria, o projeto vai além da encenação teatral e abrange uma consciência social que busca inserir a população do bairro, e não só seu espaço físico, em ações de revitalização. O projeto será debatido em livro (a ser lançado neste ano pela Companhia Editora Nacional-Ibep), em documentário e videoblogue (www.pessoaldofaroeste.com.br). Para eles, algumas políticas afastam os moradores do bairro. O vizinho Museu da Energia, por exemplo, só funciona em expediente comercial e com os portões trancados, por segurança. Para entrar, é necessário comunicar os vigias, que abrem as portas.

Apoiado até o meio do ano pela Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo, o grupo não cobra o valor dos ingressos e usa a política do “pague quanto puder”. Vê nesse processo algo vantajoso tanto para ele quanto para a população. Um dos desafios da companhia é torná-la viável economicamente sem o apoio do fomento. “Este é um projeto mais político do que imaginamos, por sua produção e por estar inserido onde está”, diz Faria. “Socialmente refletindo, aqui nos entendemos como seres políticos e articulados por uma questão de cidadania. Como recuperar um espaço sem recuperar a cidadania?”

A pouca movimentação noturna na Luz gira em torno da Sala São Paulo, um espaço restrito, com estacionamento próprio e segurança. A companhia enfrenta certa dificuldade de atrair público, o que acredita ser um problema contornável a partir do momento em que iniciativas públicas e particulares tornem a região entrosada. Se depender do Pessoal do Faroeste, o caminho será seguro.

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Sobre ldcfonseca

Psicólogo, professor universitário. Membro da atual diretoria do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Membro do FLAMAS - Fórum da Luta AntiMAnicomial de Sorocaba. Membro do comitê gestor do Núcleo Sorocaba da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Mestrando em Psicologia Social pelo IP-USP. À escuta do não dito. Por uma sociedade SEM manicômios.
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