Holismo

“O humano e o desumano não se distinguem: o homem completo é afetado por uma imundíce fundamental.” (p.39)

“De forma mais geral, a dialética demonstra que o humano precisou desenvolver-se ao longo da história. Mas o homem não poderia crescer ‘harmoniosamente’, isto é, adquirir novas capacidades, unicamente pelo esforço da boa vontade, de tal modo que sua história se desenvolvesse inteiramente em um plano moral ou intelectual? Essa hipótese idealista não toma em consideração a dialética. Ela aplica ao passado o método da construção abstrata e fantasmagórica que os utopistas aplicam ao futuro. O desumano através da história (e certamente toda a história foi desumana!) não deve nos deprimir, nem nos apresentar um mistério, tal como a presença eterna do mal, do pecado ou do diabo. A desumanidade é um fato e o humano também o é. A história mostra-os indiscernivelmente misturados, até a reinvindicação fundamental da consciência moderna. Essa constatação vem a ser explicada pela dialética, que a eleva à posição de verdade racional. O homem só poderia ter se desenvolvido através de contradições; portanto o humano só poderia ter se formado em oposição ao desumano, inicialmente misturado com ele, para enfim ser discernido através de um conflito e dominá-lo pela resolução desse conflito. Foi assim que o conhecimento, a razão e a ciência humana se tornaram e permanecem ainda como instrumentos da potência desumana. Foi assim que a liberdade não pôde ser pressentida e atingida, salvo através da servidão. Foi assm ainda que o enriquecimento da sociedade humana não se pôde realizar senão por meio do empobrecimento e da miséria das grandes massas humanas. De forma semelhante, o Estado, meio de liberação e de organização, foi também, e ainda continua sendo, um meio de opressão. Em todos os domínios, o desumano e o humano se revelam com a mesma necessidade, como dois aspectos da necessidade histórica, dois lados do crescimento do mesmo ser. Mas acontece que esses dois aspectos , esses dois lados, não são iguais e simétricos, como o Bem e o Mal em certas teologias (como o maniqueísmo). O humano é o elemento positivo. A história é a história da humanidade, de seu crescimento e de seu desenvolvimento. O desumano não é mais do que seu elemento negativo: é a alienação (aliás, inevitável) do humano. É por isso que o homem finalmente humano pode e deve dominá-lo, por meio do controle de sua alienação.” (p.40-41).

Henri Lefebvre, “Marxismo”, 1948.

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Sobre ldcfonseca

Psicólogo, professor universitário. Membro da atual diretoria do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Membro do FLAMAS - Fórum da Luta AntiMAnicomial de Sorocaba. Membro do comitê gestor do Núcleo Sorocaba da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Mestrando em Psicologia Social pelo IP-USP. À escuta do não dito. Por uma sociedade SEM manicômios.
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2 respostas para Holismo

  1. Mariangela disse:

    Simplesmente mágico esses encontros que ninguém pode impedir…
    Adorei.

  2. Mariangela disse:

    Adorei

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