“Vermelho”

po Sabrina Veronezi

Eu me lembro perfeitamente a primeira vez que há vi. O dia que ela chegou. Não lembro especificamente se era um dia de sol ou chuva, se era uma segunda ou quinta feira mas lembro da presença dela no cômodo. Ela tinha uma cabeleira naturalmente ruiva . Seus cachos eram grandes , eram rebeldes eles sincronizavam perfeitamente com seus olhos firmes de uma cor indefinida seu rosto meio quadrado forte seus lábios carnudos. Seu sotaque era diferente, era das pessoas do sul, e eu achava enlouquecedor quando ela falava ”ti” ao invés de “você” como todas nós. Ela carregava apenas uma mochila nas costas oque era incomum para uma garota que veio para morar. E jogou a mochila em cima do meu beliche sem pedir licença. Mas logo vi que não era arrogância. Ela era assim, moleca, risonha, quando falava balançava a cabeça como se estivesse tentando segurar as idéias. Éramos muitas garotas por ali mas nenhuma nunca havia me deixado assim boba sem saber sequer como articular as palavras quando olhava para ela. Eu bebia seu sorriso e sua personalidade vibrante me sugava todas as forças. Eu sequer falava quando ela estava por perto.

Os dias passavam voando naquela época. Quase todas nós estávamos além de muito envolvidas com a faculdade correndo atrás de um emprego de meio período para poder segurar uma grana até o final do mês quando a mesada já havia à muito se esgotado. E assim entre calcinhas penduradas no varal improvisado, empregos temporários e muitos livros, nossa rotina nos permitia apenas um olá, pelos corredores. Horas de sono nunca foram desperdiças por mim ao contrário de muitas de nós eu tinha que dormir senão era incapaz de render algo nos estudos.

Enfim numa noite quente de verão paulistano eu me joguei cedo na cama debaixo do beliche, e ela estava na de cima. Me surpreendeu vê-la ali era raro, com certeza ela não era uma pessoa que necessitasse dormir tanto quanto eu. A noite estava mesmo quente e o pequeno ventilador fazia muito mais barulho que vento. Começamos conversar banalidades do cotidiano, ela me contou sobre sua familia no sul, sobre como era viver numa fazenda. Eu me surpreendi, nunca a imaginei numa fazenda. Rimos de bobagens, das futilidades das nossas companheiras de quarto, dos garotos da faculdade, eu nem sei em que momento ela escorregou para minha cama. Só sei que de repente ela estava lá, ao meu lado deitada apoiando a cabeça no braço e aquela cabeleira me deu vontade de passar a mão. Pus a mão e não estranhei a maciez dos fios, eu tinha certeza que eram macios. Por um momento nossas vozes se calaram e minha garganta ficou seca, mas não tirei a mão, ao contrário deslizei por seu rosto, sua pele lisa, de uma brancura de porcelana me fizeram estremecer. Sequer sentimos o movimento dos nossos corpos, porém nossos lábios se tocaram, me embriaguei em seu perfume, seu hálito cálido, seus olhos oceanicos. Ela deslizou para baixo do meu lençol, de repente nossos corpos estavam dançando uma dança desconhecida até mesmo para nós, numa sincronia perfeita, e até nosso suor tinha cheiro de posse, nossos corpos tinham sede mas não era de água.

Depois daquela noite quase não nos falamos. A rotina nos consumiu inteiramente e de repente já era o final do ano. Ela foi embora para outra republica, me contou ter encontrado um bom emprego. Desejei sorte, e assim como chegou ela partiu. Com sua mochila azul, seu chiclete na boca, sua cabeleira solta.

Depois de longas férias familiares, a volta a faculdade ocorreu sem novidades no ano seguinte. A mesma rotina de livros, empregos, falta de grana, sono acumulado, calcinhas nos varais, batons vermelhos nos lábios, alegria em encerrar semestres, enfim… nunca mais a vi.

Mas ainda hoje volto o pescoço toda vez que passo numa avenida, ou vejo num táxi, dentro de um café, uma cabeleira vermelha…..


Anúncios

Sobre ldcfonseca

Psicólogo, professor universitário. Membro da atual diretoria do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Membro do FLAMAS - Fórum da Luta AntiMAnicomial de Sorocaba. Membro do comitê gestor do Núcleo Sorocaba da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Mestrando em Psicologia Social pelo IP-USP. À escuta do não dito. Por uma sociedade SEM manicômios.
Esse post foi publicado em Contos. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s