Revisitando sete teses sobre mídia e política no Brasil

(fonte: http://grabois.org.br/portal/cdm/revista.int.php?id_sessao=50&id_publicacao=201&id_indice=1725)

Por Venício Ade Lima, sociólogo, jornalista e publicitário. Mestre, doutor e pós-doutor em Communications pela University of Illinois at Urbana-Champaign. É também pós-doutor pela University of Miami/Ohio. Professor titular de Ciência Política e Comunicação da Universidade de Brasília (aposentado).

O que está em jogo quando se trata das relações entre mídia e política é o processo democrático. As distorções de poder são provocadas pelo desequilíbrio histórico entre os sistemas privado, público e estatal e pela concentração da propriedade e a vinculação dos grandes grupos de mídia com oligarquias políticas.

Vários pesquisadores, em diferentes instituições acadêmicas, têm se dedicado à pesquisa das relações entre mídia e política no Brasil, nos últimos anos. A literatura sobre o tema não pára de crescer, estimulada, sobretudo, pelo debate em torno da importância da mídia nos processos político-eleitorais retomado desde o fim do autoritarismo na segunda metade da década de 1980 (Rubim e Azevedo, 1998).

Este é um campo ainda não plenamente consolidado, na confluência entre a Ciência Política e os estudos da Comunicação, e onde várias concepções teóricas estão em disputa e coexistem interpretações conflitantes sobre a mesma realidade. Essa situação não se constitui em privilégio das relações entre mídia e política no amplo espectro do conhecimento contemplado pelas Ciências Humanas e Sociais. De qualquer forma, pretende-se aqui apenas relacionar um conjunto de teses, coerentes com a perspectiva teórica que atribui à mídia importância fundamental nas sociedades contemporâneas, e que somente a continuada avaliação empírica poderá validar ou não.

Mídia e política

Uma das dificuldades teóricas no estudo das relações da mídia com a política tem sido a imprecisão conceitual. Termos como comunicação, mídia e informação, por exemplo, são empregados sem que se faça a devida distinção entre aquilo que cada um deles significa e nomeia. Dessa forma, antes de apresentar nossas sete teses, é necessário explicitar com quais conceitos de mídia e de política estamos trabalhando.

No seu Mídias sem Limite (2003), o pesquisador Todd Gitlin, interessado, sobretudo, na mídia eletrônica, usa uma inteligente parábola para explicar o caráter abrangente da mídia. Reproduzo:

“Um fiscal de alfândega observa um caminhão aproximar-se da fronteira. Desconfiado, manda o motorista descer e revista o veículo. Retira painéis, pára-choques e estepe, mas não encontra nem traço de contrabando. E assim, ainda desconfiado, mas sem saber onde procurar mais, manda o motorista embora. Na semana seguinte, o mesmo motorista aparece. Novamente o fiscal revista tudo e, novamente, não encontra nada ilícito. Os anos passam, o fiscal experimenta revistar o próprio motorista, tenta raios-X, sonar, tudo em que consegue pensar, e toda semana o mesmo homem vem, mas nenhuma carga misteriosa jamais aparece e, todas as vezes, relutante, o fiscal manda o homem embora. Finalmente, depois de muitos anos, o fiscal vai se aposentar. O motorista chega.

– Sei que você é contrabandista – diz o fiscal. – Nem adianta negar. Mas não consigo imaginar o que você contrabandeou esses anos todos. Estou quase me aposentando. Juro que não vou prejudicar você. Por favor, me conte o que você está contrabandeando.

– Caminhões – diz o motorista”.

Quando falamos de mídia estamos nos referindo à indústria da cultura, isto é, às emissoras de rádio e de televisão (aberta e paga), aos jornais, revistas e ao cinema, portadores do que se chama de comunicação de massa. Ela é parte de nossas vidas da mesma forma que os caminhões para o fiscal de alfândega. E é por isso que quase não nos apercebemos dela e de sua importância.

A mídia – plural latino de medium, meio – é entendida aqui como o conjunto das instituições que utiliza tecnologias específicas para realizar a comunicação humana. Vale dizer que a instituição mídia implica sempre na existência de um aparato tecnológico intermediário para que a comunicação se realize. A comunicação passa, portanto, a ser uma comunicação midiatizada. Esse é um tipo específico de comunicação, realizado através de instituições que aparecem tardiamente na história da humanidade e constituem-se em um dos importantes símbolos da modernidade. Duas características da comunicação midiatizada são a sua unidirecionalidade e a produção centralizada, integrada e padronizada de seus conteúdos.

A política, por outro lado, em sua origem clássica, derivada da palavra grega polis, significa “tudo que diz respeito à cidade, o que é urbano, civil, público”. Historicamente, a idéia de Política está associada ao exercício do poder tanto na relação entre soberano e súditos, como entre governantes e governados, e entre autoridade e obediência.

Queremos salientar aqui o conceito de política associado à idéia de público.

Para justificar essa escolha vamos nos valer de um precioso artigo de Norberto Bobbio (1992), “A Democracia e o Poder Invisível”, publicado ainda em 1980. Embora preocupado em discutir aquilo que chama de “insucessos” (sic) da democracia, ele nos introduz no espaço conceitual da democracia como “governo do poder visível” ou como “governo do poder público em público” em oposição ao poder autocrático.

É preciso lembrar que há dois significados básicos para a palavra público. No primeiro, em oposição ao que é privado, público refere-se à coisa pública, ao Estado; no segundo, em oposição ao que é secreto, refere-se ao que é manifesto, evidente, visível. Podemos dizer, portanto, que a democracia é – em tese – o regime do poder visível da coisa pública. Dessa forma, a política, nas democracias, seria a atividade pública (visível) relativa às coisas públicas (do Estado). Neste texto, é assim que a política será entendida, como atividade eminentemente pública e visível nas democracias.

Explicitados os conceitos de mídia e de política com os quais vamos trabalhar, podemos passar agora à apresentação de nossas sete teses:

PRIMEIRA: a mídia ocupa uma posição de centralidade nas sociedades contemporâneas permeando diferentes processos e esferas da atividade humana, em particular, a esfera da política.

A noção de centralidade tem sido aplicada nas Ciências Sociais igualmente a pessoas, instituições e idéias-valor. Ela implica a existência de seu oposto, vale dizer, o periférico, o marginal, o excluído, mas, ao mesmo tempo, admite gradações de proximidade e afastamento. Pessoas, instituições e idéias-valor podem ser mais ou menos centrais.

Um pressuposto para se falar na centralidade da mídia (sobretudo a eletrônica) nas sociedades é a existência de um sistema nacional (network) consolidado de telecomunicações. Há relativamente pouco tempo, o Brasil não dispunha de uma mídia de alcance nacional. Embora a imprensa (jornais e revistas) exista entre nós desde o século XIX e o cinema e o rádio desde a primeira metade do século XX, por peculiaridades geográficas e históricas, só se pode falar em uma mídia nacional, a partir do surgimento das redes (networks) de televisão e isto já no início da década de 70 do século passado, portanto, há pouco mais de 30 anos.

Há, é verdade, transmissões de rádio (AM e OC) em rede desde a década de 1940 (a mais famosa continua no ar até hoje, a rede oficial A Voz do Brasil) e, pelo menos uma revista – O Cruzeiro, dos Diários e Emissoras Associadas – que circulava nacionalmente e chegou a ter uma tiragem de 550 mil exemplares na década de 1950. Mas essas experiências não caracterizam a produção e distribuição nacional, centralizada, integrada e padronizada de informações e entretenimento como se tem hoje, no início do século XXI.

Do ponto de vista político, o papel central da mídia, sobretudo da mídia eletrônica, em particular a televisão, foi inicialmente reconhecido pelo Estado militar durante o regime autoritário. Foram eles e seus aliados civis que – por razões, em primeiro lugar, de segurança nacional, e de mercado, em segundo – criaram as condições de infra-estrutura física indispensáveis à consolidação de uma mídia nacional. E também os que primeiro fizeram uso político dela, não só com o recurso à censura, mas sobretudo com o apoio “conquistado” – explícito em muitos casos – das principais redes impressas e eletrônicas, algumas consolidadas durante o próprio período militar.

A maioria das sociedades urbanas contemporâneas pode ser considerada como “centrada na mídia” (media centric), pois a construção do conhecimento público que possibilita, a cada um de seus membros, a tomada cotidiana de decisões nas diferentes esferas da atividade humana não seria possível sem ela.

Um bom exemplo dessa centralidade é o papel crescente da mídia no processo de socialização e, em particular, na socialização política. A socialização é um processo contínuo que vai da infância à velhice e é através dele que o indivíduo internaliza a cultura de seu grupo e interioriza as normas sociais. Uma comparação da importância histórica de diferentes instituições sociais no processo de socialização revelará que nos últimos trinta anos, a família, as igrejas, a escola e os grupos de amigos vêm crescentemente perdendo espaço para a mídia.

Todavia, o papel mais importante desempenhado pela mídia decorre do poder de longo prazo que ela tem na construção da realidade através da representação que faz dos diferentes aspectos da vida humana – das etnias (branco/negro), dos gêneros (masculino/feminino), das gerações (novo/velho), da estética (feio/bonito) etc – e, em particular, da política e dos políticos. É através da mídia – em sua centralidade – que a política é construída simbolicamente, adquire um significado.

SEGUNDA: não há política nacional sem mídia.

A política nos regimes democráticos é (ou deveria ser) uma atividade eminentemente pública e visível. E a mídia – e somente ela – é que tem o poder de definir o que é público no mundo contemporâneo. Na verdade, a própria idéia do que constitui um “evento público” se transforma a partir da existência da mídia. Antes de seu desenvolvimento, um “evento público” implicava em compartilhamento de um lugar (espaço) comum; co-presença; visão, audição, aparência visual, palavra falada; diálogo. Depois do desenvolvimento da mídia, um evento para ser “evento público” não está limitado à partilha de um lugar comum. O “público” pode estar distante no tempo e no espaço. Dessa forma, a mídia suplementa a forma tradicional de constituição do “público”, mas também a estende, transforma e substitui. O “público” agora é midiatizado.

Essa nova situação provoca conseqüências imediatas tanto para quem deseja ser político profissional quanto para a prática da política. Isso porque (a) os atores políticos têm de disputar visibilidade na mídia; e (b) os diferentes campos políticos têm de disputar visibilidade favorável de seu ponto de vista.

TERCEIRA: a mídia exerce várias das funções tradicionais atribuídas aos partidos políticos.

No Brasil, embora a crise dos partidos seja tema de controvérsias, existe razoável consenso sobre a histórica inexistência de uma tradição partidária consolidada. Torna-se, assim, mais fácil o exercício pela mídia de algumas das tradicionais funções atribuídas aos partidos, como por exemplo:

. construção da agenda publica (agendamento);

. geração e transmissão de informações políticas;

. fiscalização das ações de governo;

. exercício da crítica das políticas públicas; e

. canalização das demandas da população.

A ocupação desse espaço institucional pela mídia é apontada como uma das causas da crise generalizada dos partidos em diferentes sistemas políticos. Além disso, atribui-se à preferência da mídia pela cobertura jornalística dos candidatos e não dos partidos, uma crescente “personalização” da política e do processo político que estaria sendo representado como uma disputa entre pessoas (políticos) e não entre propostas políticas alternativas (partidos). Desta forma, o espaço de atuação partidária estaria diminuindo cada vez mais (Wattenberg 1991, 1994).

Vale mencionar que muitas emissoras de rádio AM brasileiras se caracterizam por exercer o papel de canalizadoras das demandas populares através de programas comandados por radialistas, muitos dos quais têm se transformado, com sucesso, em políticos profissionais exercendo mandatos nas Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas, no Congresso Nacional e ocupando cargos eletivos no Poder Executivo. Mais recentemente, o jornalismo de televisão também assume esse papel de canalizador de demandas através do chamado “jornalismo comunitário” que prioriza a cobertura das camadas populares nos grandes centros urbanos, negociando com o governo local em nome desse segmento da população e funcionando – permanentemente – como “grupo de pressão”.

É preciso registrar também que, muitas vezes, ao praticar um denuncismo vazio, a mídia brasileira acusa e condena publicamente, sem o devido julgamento, tanto pessoas como instituições e desempenhando assim, indevidamente, uma função específica do Poder Judiciário.

QUARTA: a mídia alterou radicalmente as campanhas eleitorais.

É necessária aqui uma observação preliminar. Nas campanhas para prefeito e vereador só existe o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral na TV naqueles municípios com geradoras de televisão. Nas eleições de 2004, eles eram apenas 185 dos 5559 municípios brasileiros, representando cerca de 40% do eleitorado nacional. Neles, as campanhas locais são, na verdade, “contaminadas” pelas campanhas das cidades vizinhas. Essa é uma das razões – não a única – pelas quais nossa tese se refere às eleições presidenciais e às eleições regionais majoritárias.

A comparação, ainda que incompleta, entre as condições de realização das eleições diretas para Presidente da República em 1960 e 1989 – a última e a primeira realizadas pelo Brasil antes e depois dos anos de autoritarismo – ajuda a ilustrar essa tese. Como o candidato a presidente, de um partido ou coligação de partidos, se comunicava com os eleitores em 1960? A imprensa e o rádio eram locais e a TV apenas engatinhava. A propaganda eleitoral era garantida através do acesso pago dos candidatos ao rádio mediante tabela de preços igual para todos, nos noventa dias anteriores à eleição.

Não havia disciplina legal para o acesso à TV, até porque as estimativas disponíveis dão conta de que nesse ano existiam apenas cerca de 100 mil aparelhos no Rio e em São Paulo. Os debates entre candidatos, promovidos e transmitidos pelo rádio e pela TV durante as campanhas eleitorais, ainda não eram instituídos. O marketing eleitoral era um conceito embrionário. O sucesso de uma campanha eleitoral dependia, em boa medida, do contato direto do candidato com os eleitores. Isso era feito através de inúmeras e constantes viagens, visitas e comícios em centenas de cidades do país. Como o candidato dependia de suporte local nas cidades a serem visitadas, a organização e a estrutura partidárias tornavam-se de importância fundamental. Outro recurso era as viagens e visitas de correligionários políticos.

Os partidos/coligações partidárias e as demais organizações políticas exerciam a função de mediadores entre o candidato e os eleitores. Além disso, constituíam-se, para o eleitor, em fonte primeira de informações sobre o candidato e seu programa de governo. Através dessas instituições e da distribuição de cartazes, faixas, medalhas, distintivos, santinhos etc os candidatos buscavam definir a agenda da campanha e construir a sua imagem junto aos eleitores.

Vamos pensar a mesma questão em 1989. Como os candidatos a presidente da República se comunicaram com os eleitores? Na verdade, as condições de 1989 se alteraram tanto em relação às de 1960 que a vitória de Collor fez parte de uma ampla estratégia de marketing político-eleitoral que incluiu a criação – e até mesmo a alteração do nome – de um partido político. A execução dessa estratégia se iniciou muito antes da homologação final da candidatura por um partido. Embora a legislação expressamente proíba a utilização do espaço de divulgação dos partidos na mídia para fins outros que não a difusão do programa partidário, historicamente ele tem sido utilizado para teste e consolidação de eventuais candidaturas, como foi o caso na eleição de 1989.

Dessa forma, a comunicação com os eleitores se transformou inteiramente. Consultores, assessores profissionais e empresas especializadas em marketing eleitoral assumiram posição estratégica na definição e formatação das próprias mensagens dos partidos e/ou candidatos para os seus eleitores potenciais. Os custos financeiros das campanhas se tornaram astronômicos.

Os eventos políticos (convenções partidárias, comícios, debates, inaugurações, visitas, viagens, pronunciamentos públicos etc) passaram a ser planejados como eventos para a TV. O contato direto foi substituído pelo contato mediado pela mídia eletrônica. O mesmo ocorreu com relação às fontes de informação dos eleitores. Segundo pesquisas da DataFolha, 86% dos entrevistados em 1989 e 89% em 1990 tomaram conhecimento sobre os acontecimentos políticos através da TV.

QUINTA: a mídia se transformou, ela própria, em importante ator político.

As empresas de mídia são hoje atores econômicos fundamentais como parte de grandes conglomerados empresariais articulados em nível global. Além disso, pelo poder emanado de sua capacidade única de produzir e distribuir capital simbólico e pela ação direta de seus concessionários e/ou proprietários, se transformaram também em atores com interferência direta no processo político. Os “escândalos políticos midiáticos”, de que tratamos acima, constituem um exemplo dessa transformação e o caso da Rede Globo de Televisão, ao longo de mais de 40 anos, será objeto de nossa atenção especial adiante.

Para ilustrar nossa quinta tese utilizaremos um exemplo também envolvendo a Rede Globo de Televisão como grupo empresarial comprometido com a divulgação de eventos esportivos. O fato se passou entre o primeiro e o segundo turnos das eleições municipais de São Paulo, em 2004. Para garantir seus interesses e os de seus patrocinadores, a Rede Globo fez um acordo, intermediado pela própria Justiça Eleitoral, com os dois partidos políticos envolvidos no segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo. Esse acordo suspendeu a transmissão do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral na televisão – não só na Rede Globo, mas também nas demais concessionárias de televisão da cidade – nos dias de treino (isso mesmo, treino) do Grande Prêmio Brasil de Fórmula Um que seria realizado na cidade em 24 de outubro de 2004.

O fato foi descrito – e comentado – com propriedade, em pequena matéria publicada por Nelson de Sá em sua coluna “Toda Mídia”, sob o título “O acordo”, na Folha de S. Paulo de 21 de outubro de 2004, p. A-14.

“Entrou no final da tarde de ontem, no site da Globo Online, pequena nota informando, sob o curioso título ‘TVs não transmitirão propaganda eleitoral em dia de treino do Grande Prêmio do Brasil’:

– O acordo foi pedido pela Rede Globo de Televisão. Ele foi mediado pela Justiça Eleitoral com os partidos que concorrem no segundo turno, PT e PSDB.

É um acordo que ‘libera todas as emissoras de transmitir o horário eleitoral’, não apenas a Globo, insistiu a nota.

SBT, Band e demais nem terão que veicular, como a Globo, ‘um vídeo de cinco minutos para cada candidato, entre 11h50 e 12h15’, é claro que ‘respeitando a ordem do horário eleitoral’. (…)

Na piada que corre: no Brasil, a televisão não é concessão do Estado, o Estado é que é uma concessão da televisão”.

SEXTA: as características históricas especificas do sistema de mídia no Brasil potencializam o seu poder no processo político.

O Brasil optou, ainda na década de 30 do século passado, pelo chamado “trusteeship model”, isto é, entregar o setor de radiodifusão, prioritariamente, à exploração comercial da empresa privada, através de concessões da União. Somente em 1998, a nova Constituição fala em complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal (Artigo 223) e, mesmo assim, a norma nunca foi regulamentada e não teve qualquer eficácia.

Historicamente o setor tem tido uma regulação que incentiva, sem restrições, o desenvolvimento da radiodifusão privada e comercial e, nas últimas décadas, apesar de radicais mudanças tecnológicas, suas principais normas legais não foram atualizadas. Na verdade, apesar da evidente necessidade de um novo e abrangente marco regulatório, o setor permanece regido por um Código do início da década de 60 do século passado (Lei 4.117 de 27/8/1962), totalmente desatualizado.

A legislação do setor, além de desatualizada, não é uniforme. Se, por um lado, a Constituição Brasileira reza, desde 1988, que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio” (Parágrafo 5º do Artigo 220), por outro, normas legais mais recentes, como, por exemplo, a Lei da TV a Cabo, por intenção expressa do legislador, não incluíram dispositivos que limitassem ou controlassem a concentração da propriedade.

A tibieza legal fez com que uma das características identificadoras da radiodifusão brasileira fosse a ausência de restrições efetivas à propriedade cruzada, isto é, à possibilidade de que um mesmo grupo empresarial controle jornais, revistas, emissoras de radio e de televisão em um mesmo mercado. Isso fez com que a radiodifusão se estabelecesse oligopolisticamente no nosso país. Os maiores concessionários de emissoras de rádio foram os grupos já proprietários de jornais. O mesmo aconteceu com as concessões de televisão. Dessa maneira se formaram os maiores grupos de mídia nacionais e regionais no Brasil resultando num sistema de mídia concentrado e controlado por um reduzido grupo de empresas. Os principais exemplos são os Diários e Emissoras Associadas, até a metade do século passado e as Organizações Globo, a partir da década de 1970.

Consolidou-se, portanto, entre nós um sistema de mídia concentrado, liderado pela televisão e, em boa parte, controlado por grupos familiares vinculados às elites políticas regionais e locais. Essas características específicas é que fazem com que, no Brasil, o poder da mídia assuma, potencialmente, proporções ainda maiores do que em outros sistemas políticos.

SÉTIMA: as características específicas da população brasileira potencializam o poder da mídia no processo político, sobretudo no processo eleitoral.

Segundo a terceira pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro a cada dois anos, sobre analfabetismo funcional (http://www.ipm.org.br/an_ind.php), divulgada em setembro de 2005, apenas 26% dos brasileiros entre 15 e 64 anos têm domínio pleno das habilidades de leitura e escrita, vale dizer, somente 1 (um) em cada 4 (quatro) consegue entender as informações de textos mais longos e relacioná-las com outros dados. Além disso, a pesquisa constatou que 30% dos brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais ou “alfabetizados rudimentares”, isto é, pessoas com esse nível de leitura não conseguiriam entender as orientações de um médico passadas por escrito. Esses dados praticamente não se alteraram nos 6 anos em que a pesquisa é feita.

Entretanto, pela pesquisa realizada pelo Instituto Vox Populi, em junho de 2006, 58% dos entrevistados declaram ter a televisão como sua principal fonte de informação política. Os familiares e os amigos – que também se expõem à televisão – vêm em segundo lugar com 18%. Só depois vêm os jornais com 7%, o rádio com 6% e os colegas de trabalho com 4% (Cf. Carta Capital n. 400 de 5/7/2006, p. 26).

Considerando que 90,3% dos domicílios brasileiros possuem pelo menos um aparelho de televisão (PNAD 2004), podemos inferir que a grande maioria de nossa população (e de nossos eleitores) vive uma situação paradoxal de exposição à mídia: “saltou” de uma condição pré-gutenbergiana para outra, totalmente diferente, da sofisticação das imagens do mundo da televisão.

Ao contrário de nações, com populações quase totalmente alfabetizadas e que tiveram como seu primeiro “produto” cultural de massa os livros-de-bolso, a grande maioria de nossa população continua sem o domínio da leitura e da escrita, mas convive com as imagens da televisão, para entretenimento e informação.

Esses dados não significam que inexistem formas alternativas à grande mídia, sobretudo à televisão, de se comunicar com a população. Elas existem. Apesar disso, as características específicas de nossa população e, sobretudo, o seu padrão de exposição à mídia, potencializam ainda mais sua centralidade e o seu poder, em relação ao processo político e, em particular, ao processo eleitoral.

Observações finais

Explicitadas as sete teses sobre a relação da mídia com a política no Brasil, é preciso lembrar que elas não devem ser consideradas como imutáveis, mas, pelo contrário, como permanentemente sujeitas às condições históricas concretas de nossa sociedade.

Um erro comum é acreditar na eterna onipotência da mídia. Em outra ocasião (Lima, 2004c) tentamos mostrar como existe sempre a possibilidade de ações contra-hegemônicas que – umas com mais sucesso, outras com menos – enfrentam o enorme poder da mídia.

Dois casos exemplares: a resistência do presidente Lula e de seu governo durante a crise política de 2005-2006 e a reeleição de Lula em 2006. Apesar de uma narrativa adversa unânime da grande mídia, Lula e seu governo mantiveram altos índices médios de aprovação popular. Fatores como a organização da sociedade civil e, sobretudo, a comunicação direta mantida pelo presidente com parte significativa da população através de viagens, discursos e de um programa semanal de rádio “sem edição” – o Café com o Presidente da Radiobras – certamente exerceram um contraponto importante ao discurso hegemônico da grande mídia. Da mesma forma, durante a campanha eleitoral de 2006 o descolamento da opinião da grande mídia da opinião pública e a realidade concreta vivida pela maioria da população formam fatores na “derrota” da grande mídia.

Outro aspecto a ser lembrado é o momento de transição por que passam a política e a mídia.

A transição na Política tem sua origem tanto no processo chamado de globalização como na “projeção de um novo credo, centrado no indivíduo aquisitivo, na hipervalorização do mercado e do econômico, no cidadão como consumidor” (Nogueira, 2001). Como conseqüência há um deslocamento da política para novos territórios (des-territorialização) e um questionamento dos Estados nacionais vis á vis as empresas transnacionais e os organismos internacionais. Vive-se um momento de transição e incertezas com reflexos concretos na atividade política.

Já a grande mídia – tanto impressa como eletrônica – não só no Brasil, mas em todo o mundo, além do avanço acelerado de novas tecnologias como a internet, do surgimento dos blogs e da próxima digitalização da radiodifusão, sofre um processo de distanciamento crescente com o seu público. E, neste caso, é difícil não falar em “crise de credibilidade”.

O colunista Luís Nassif, em artigo na Folha de S. Paulo, argumentando que a mídia não está preparada para os novos tempos em que se exige dela “estabelecer parâmetros” para avalizar a avalanche de informações disponíveis, escreveu: “Chega-se ao final de um ciclo, que começou com a campanha do impeachment, que derrubou um presidente, e termina com a do mensalão, que não foi capaz de abalar a popularidade de outro presidente. O exercício do jornalismo precisa ser urgentemente repensado. E não se trata de um problema de forma. É de fundo, de conteúdo”.

Acima de tudo, é preciso lembrar sempre: o que está realmente em jogo quando se trata das relações entre mídia e política é o processo democrático. As distorções de poder provocadas pelo desequilíbrio histórico entre os sistemas privado, público e estatal (de radiodifusão); pela concentração da propriedade – em boa parte provocada pela ausência de normas que impeçam a propriedade cruzada – e a vinculação dos grandes grupos de mídia com oligarquias políticas regionais e locais, são alguns dos problemas que impedem a democratização da nossa mídia. E sem ela não haverá diversidade e pluralidade de informações, vale dizer, opinião pública autônoma e, portanto, democracia plena.

Referências

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GITLIN, T. (2003). Mídias sem Limite – como a torrente de imagens e sons domina nossas vidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

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EDIÇÃO 91, AGO/SET, 2007, PÁGINAS 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19

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Sobre ldcfonseca

Psicólogo, professor universitário. Membro da atual diretoria do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Membro do FLAMAS - Fórum da Luta AntiMAnicomial de Sorocaba. Membro do comitê gestor do Núcleo Sorocaba da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Mestrando em Psicologia Social pelo IP-USP. À escuta do não dito. Por uma sociedade SEM manicômios.
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