Pablo Neruda (1904-1973)

AMOR AMÉRICA (1400)

Antes do chinó e do fraque
foram os rios, rios arteriais:
foram as cordilheiras, em cuja vaga puída
o condor ou a neve paceriam imóveis:
foi a umidade e a mata, o trovão
sem nome ainda, as pampas planetárias.

O homem terra foi, vasilha, pálbebra
de barro trêmulo, forma de argila,
foi cântaro caraíba, pedra chibcha*,
taça imperial ou sílica araucana**.
Terno e sangrento foi, porém no punho
de sua arma de cristal umidecido,
as iniciais da terra estavam
escritas.

 Ninguém pôde
recordá-las depois: o vento
as esqueceu, o idioma da água
foi enterrado, as chaves perderam
ou se inundaram de silêncio ou sangue.
Não se perdeu a vida, irmãos pastorais.
Mas como uma rosa selvagem
caiu uma gota vermelha na floresta
e apagou-se uma lâmpada da terra.


*chibcha: antiga cultura e povo da atual cidade de Bogotá (Colômbia).

** araucana: raça e cultura indígena originária do atual Chile e partes da Argentina.

Pablo Neruda pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, nasceu a 12 de julho de 1904, em Parral, no Chile. Poeta chileno, considerado um dos mais importantes literatos do século XX. Seu pseudônimo foi escolhido para homenagear o poeta tcheco Jan Neruda. Sua obra é lírica, plena de emoção e marcada por um acentuado humanismo. Em seu livro de estréia, com apenas 20 anos, Crepusculário (1923), já se assinou Pablo Neruda que, em 1946, passou a usar legalmente. Sua fama tornou-se maior com a publicação de Vinte poemas de amor e uma canção desesperada (1924). Alternando a vida literária com a diplomática, Pablo Neruda era o embaixador chileno na França quando ocorreu o golpe de Estado que depôs o presidente Salvador Allende. De volta ao Chile, sofreu perseguições políticas e morreu pouco depois (1973), sendo enterrado em sua casa de Isla Negra, ao sul do Chile. Em sua obra destacam-se Residência na Terra (1933), España en el corazón (1937, inspirado na Guerra Civil Espanhola), Canto Geral (1950), do qual o excerto acima faz parte, Cem sonetos de amor (1959), Memorial de Isla Negra (1964), A espada incendiada (1970) e a autobiografia póstuma, Confesso que vivi (1974), um emocionante testemunho do tempo e das emoções de uma grande poeta. Em 1945, recebe o Prêmio Nacional de Literatura. Em 1971, Neruda recebeu o Prêmio Nobel de Literatura e o Prêmio Lênin da Paz. Morre em 1973.

Canto Geral, obra da qual é parte o poema acima destacado, é a resposta poética de Neruda à traição de Gabriel González Videla e às injustiças históricas da América Latina, obra na qual ele transforma seu verso em arma de combate, denunciando os crimes do imperialismo americano e fazendo uma revisão histórica dos séculos de dominação estrangeira e, também, das lutas de resistência.

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Sobre ldcfonseca

Psicólogo, professor universitário. Membro da atual diretoria do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Membro do FLAMAS - Fórum da Luta AntiMAnicomial de Sorocaba. Membro do comitê gestor do Núcleo Sorocaba da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Mestrando em Psicologia Social pelo IP-USP. À escuta do não dito. Por uma sociedade SEM manicômios.
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