Marcelo Rubens Paiva: maconha, e daí?

Do blog do Marcelo Rubens Paiva

Se é bom ou ruim? Cara, para o quê? E para quem? A MACONHA me foi muito importante. Para amainar a dor do corpo e da alma, quando aos 20 anos sofri 1 acidente que me deixou tetraplégico. Fumava até no hospital em que fiquei internado por 3 meses. Os amigos levavam à noite, na visita. Um enfermeiro fumava comigo de dia. Desculpe exemplificar com um argumento desse. Espero não estar apelando. Mas foi como aconteceu. Fumava para deixar de ser. Fumei nos primeiros anos de reabilitação. Escrevi isso no livro FELIZ ANO VELHO: assumidamente para fugir da realidade. Um colega PC [com paralisia cerebral] me levava na clínica. Fumávamos juntos. Ele era gozador, apesar de se expressar com dificuldades. Eu fumava para entender o que acontecera com o surfista guitarrista letrista atorzinho metido da Unicamp, que se transformara num caco humano, sem andar, comer, sem futuro, onde não cabiam as lamentações. Fumando maconha, prestei vestibular para a ECA – USP 3 anos depois e mudei de vida. Escrevi 1 livro. Minha mãe me pegou fumando maconha nesta época. Depois, descobriu que todos em casa já tinham fumado. Inclusive amigos que faziam medicina. Não entendeu nada, pois, dos 5 filhos, 4 estudavam na USP e uma na PUC. Todos em casa falam inglês e francês. Uma irmã ainda fala alemão, e eu, italiano. Todos têm diploma de Mestrado. Duas fizeram pós-doutorado. Minha mãe achava que maconha emburrecia os jovens. Assim era ensinado. Emburrecido, comecei a escrever para a revista VEJA e entrevistar para um programa literário da TV CULTURA. Escrevi um segundo, terceiro, quarto livro, uma peça, duas, três… Então, fui parando de fumar MACONHA. Me deixava lesado. Me dava preguiça. Me dava nóia. Me afastava da memória, minha munição literária. A maioria dos meus amigos também parou há muito. Até os mais adeptos, aqueles que fumavam de 2 a 3 beques por dia. Acho engraçado os poucos que ainda fumam, pois riem de qualquer besteira que falo. E já vi suas noites sendo arruinadas por maconhas velhas e passadas. E daí? Foram dormir mais cedo, e só. Detesto reuniões de trabalho em que alguém acende um baseado. Não rende. Tem que repetir várias vezes a mesma ideia, a pessoa se esquece, se desconcentra. Não proíbo. Nem falo nada. Mas evito trabalhar com tal pessoa. Sabemos que lesa neurotransmissores. Amigos médicos me falam que não é uma droga tão inocente assim. Concordo. Mas não vou bater ou trancar ou prender ninguém por 1 motivo tão besta. E também discordo de quem diz uma estupidez como “leva a outras drogas”, ou “começa com um baseado, depois rouba, furta, mata…”. Minha mãe, diante da filharada maconheira, chegou a experimentar com seus amigos mais avançadinhos. Não achou nada demais. Como italiana, prefere um bom vinho. Um dos meus melhores amigos tem problemas renais. Ou melhor, não tem rins. A maconha é terapêutica e aconselhada pelo próprio médico. Nos EUA, em 11 Estados a maconha é liberada para uso medicinal. Na Inglaterra, idem. Não acho nada demais. Um amigo americano defendeu quando a Suprema Corte permitiu os exames antidrogas em empresas nos EUA. Invadia a privacidade, dizia o amigo, mas não quero entrar num avião cujo comandante fumou um baseado. Tem lá seus motivos. Acho que nenhum piloto de um AIRBUS fumará um beque antes de uma viagem em que cruzará os oceanos. Como não beberá cachaça, que é legal e vende nos bares ao lado do portão de embarque. Ele poderá cheirar cola num saquinho no banheiro da primeira classe. Não, né? E se o filho de alguém se perde nas drogas – sim, existe, acontece -, melhor se perguntar se a culpa é das drogas ou da estrutura pessoal ou familiar. Talvez por isso um grupo mais conservador fique aterrorizado pela possibilidade da sua liberação. Será sempre mais fácil culpar a droga do que a educação. E é melhor ter sob o controle da lucidez aquele que quer controlar. Uma besteira a POLÍCIA e a POLÍTICA perderem tanto tempo e dinheiro com esta bobagem secundária chamada MACONHA. Especialmente enquanto as cracolândias se expandem. Ali que mora o cão. Se liguem. E não vêm dizer que tem relação, porque poucos caem nessa. Quem garante que não é a pinga ou a cola que leva ao crack? Ou a desilusão. Nem fui nesta Marcha da Maconha. Estava almoçando com amigos na região da AUGUSTA. Quando vi dezenas de camburões descendo pela contramão. Motos. Policiais correndo. Porque uns moleques cabeludos carregavam cartazes escritos no papelão pedindo a legalização da maconha. O bairro foi cercado, ninguém entrava ou saía. Na esquina com a simbólica OSCAR FREIRE, policiais fizeram barricadas com armas nas mãos. Até a elite se indignou com suas sacolas de grifes italianas. Patético… Perda de tempo… E sábado tem MARCHA DA LIBERDADE. Ou melhor, #marchadaliberdade, em terceiro no trends do Twitter hoje. Tá vendo no que deu toda confusão? Só atiçou mais. Não se quer um Estado que diga o que é certo ou errado, o que faz bem ou mal. Outros regimes tentaram. Teve 1 que achou que duraria mil anos. Não deram certo. Só 1 resiste: aquele em que todos possam opinar, manifestarem-se livremente e escolher.

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Sobre ldcfonseca

Psicólogo, professor universitário. Membro da atual diretoria do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Membro do FLAMAS - Fórum da Luta AntiMAnicomial de Sorocaba. Membro do comitê gestor do Núcleo Sorocaba da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Mestrando em Psicologia Social pelo IP-USP. À escuta do não dito. Por uma sociedade SEM manicômios.
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