Condutas para intervenção em situações de crise

Condutas para intervenção nas situações de crise

construídas pela Equipe do CAPS Casaberta, Lima Duarte MG.

– Não se atua sozinho numa situação de crise, comunique o mais rápido possível a os demais membros da equipe que estiverem presente, para que possam auxiliar na intervenção.

– A intervenção na situação pode ser feita de várias maneiras, é necessário aquele que vai se aproximar, mas também aquele que vai diminuir ao máximo o número de pessoas no ambiente, recolher coisas que possam oferecer perigo, avisar o acompanhante, acalmar os demais pacientes, ficar atento caso seja preciso buscar ajuda externa.

– Muitas pessoas no local não ajudam muito, duas pessoas geralmente são suficientes para fazer uma boa aproximação.

– A melhor pessoa para se aproximar do paciente em crise é aquela que tem melhor contato com ela ou a que conhece melhor o caso, o motivo de sua crise, as questões delirantes.

– Se é o caso de uma pessoa não conhecida procure o mais rapidamente possível o maior número de informações a respeito dela. Nome, onde mora, religião, filhos, pessoas das quais ela gosta, coisas de que ela gosta, etc.

– Caso você perceba no momento que não terá condições, seja por qualquer motivo, de fazer uma abordagem de maneira favorável, se afaste e deixe que outras pessoas assumam a situação. Neste caso não fazer nada é sempre menos danoso que uma intervenção desastrosa.

– Lembre-se que se não for possível fazer nada naquele momento, isso poderá ser feito num momento subseqüente, entretanto, tomar uma atitude desastrosa pode impedir que qualquer coisa seja feita num depois.

– Ninguém e nem mesmo o CAPS tem que dar conta de tudo e de todas as situações, lembrem-se que o modelo manicomial é criticado exatamente porque tenta fazer isso.

– Ter uma certa dose de medo é importante porque nos preserva de ser surpreendido por uma agressão e também nos faz respeitar o paciente, evitando que tomemos uma atitude de enfrentamento.

– Mantenha a calma, se não puder afaste-se e tente se acalmar primeiro, ou teremos que cuidar de duas crises.

– Mantenha uma proximidade moderada do paciente, não muito próxima, nem muito distante.

– Observe o que está a sua volta: objetos, janelas, a porta de saída, para que você saiba o que fazer num momento de emergência.

– Sempre que possível convide a pessoa a se sentar ou deitar, isso diminui sua possibilidade de se machucar ou machucar alguém.

– Nesta posição é possível colocar a mão no paciente: ombros e braços, isso às vezes conforta e acalma, mas não insista se o efeito for de rejeição ao seu toque.

– Não fique dizendo coisas que contrariem mais ainda a pessoa. Coisas do tipo: – Não fique nervosa. – Não faça isso. – Não diga isso. A palavra “não” neste momento só piora as coisas. É preferível dizer frases positivas e permissivas, que não indicam ordem: – Agora você pode se acalmar. – Nós podemos conversar, se você quiser.

– Observe atentamente o que a pessoa está falando. Isso lhe dará dados para saber qual o motivo que a está lhe deixando nervosa e agitada naquele momento. Através da fala dela conseguimos verificar o que é possível fazer. (afastar, aproximar, chamar uma determinada pessoa, atender um pedido)

– Tente manter um diálogo com a pessoa a partir daquilo que ela está dizendo, mantê-la falando diminui a possibilidade de que ela faça um ato.

– Mantenha uma atitude de respeito e humildade para com a pessoa, lembre-se que ela está apenas precisando de ajuda.

– Não dê ordens, convide a pessoa a fazer o que é preciso ser feito, negocie com ela, converse, mesmo que para isso seja necessário muito tempo e saliva.

– Uma intervenção de crise exige urgência em iniciar uma intervenção, não em finalizá-la. Ter calma, não agir sozinho e pensar para atuar, favorece a tomada de uma atitude terapêutica.

– Infelizmente só saberemos se nossa atitude foi terapêutica depois que a situação tem seu desfecho, porque não há uma receita pronta, vamos precisar construir tudo em cada momento, em cada situação e com cada paciente.

– Qualquer intervenção feita à força torna as coisas muito piores depois. Entretanto, reduzir o espaço por meio da restrição do espaço físico (colocar em uma sala e fechar a porta, colocar no leito ou numa cadeira) pode fazer uma contenção sem que seja necessária a força física. Um abraço firme, também pode ser um modo de conter, mas ele só deve ser usado em casos onde o técnico conhece muito bem o paciente e tem um contato muito bom com ele. Se for mesmo preciso ser usada a força (casos de violência extrema com risco para todos) a polícia ou corpo de bombeiros deve ser acionada.

– Dentro do CAPS um bom lugar para atender a crise é o posto de enfermagem. A cama do posto dá a ideia para o paciente de que ele vai ser cuidado. O espaço restrito, a possibilidade de fechar a porta e a facilidade do acesso à medicação também podem ajudar.

– No caso do paciente ficar deitado no posto é muito importante que alguém fique com ele, neste momento o acompanhante pode ser chamado para cumprir esta função, caso ele esteja sendo bem aceito pelo paciente.

– Em geral, no momento da crise, o paciente se sente perseguido e ameaçado, sendo assim, qualquer atitude que reforce esta situação não é bem vinda. Atitudes do tipo: sair correndo atrás do paciente, ameaçá-lo, se colocar como alguém que tem poder ou direitos sobre ele.

– Não olhe muito fixamente nos olhos da pessoa isto também favorece que você fique na posição de perseguidor.

– Neste momento, o paciente precisa se sentir seguro e podemos dizer a ele palavras que o confortem: – Aqui ninguém lhe fará mal. – Estamos aqui para te ajudar. – Tudo vai ficar bem. – Vamos cuidar de você. – Estamos do seu lado. Etc. Resumindo: precisamos nos colocar do lado dele e contra quem o está perseguindo.

– Sempre utilize a palavra nós para justificar qualquer intervenção. Nós vamos te medicar, nós vamos resolver isso, nós vamos te levar para o hospital. A palavra “eu” reforça uma atitude autoritária, favorecendo que você se torne um perseguidor.

– No momento da crise é bem provável que a pessoa esteja escutando vozes, ou que mil coisas estejam passando pela sua cabeça. Reduza todo o tipo de barulho do ambiente: som, tv, pessoas falando e fale somente o suficiente para manter a pessoa falando.

– A grande dúvida numa intervenção deste tipo deve ser: será que depois disso o paciente voltará de bom grado? 

– Sempre que passada a crise – dias ou semanas depois – é necessário que numa situação de consultório a pessoa possa falar dela a fim de significá-la ou ressignificá-la.

Outras contribuições significativas em http://ritadecassiadeaalmeida.blogspot.com/

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Sobre ldcfonseca

Psicólogo, professor universitário. Membro da atual diretoria do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Membro do FLAMAS - Fórum da Luta AntiMAnicomial de Sorocaba. Membro do comitê gestor do Núcleo Sorocaba da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO. Mestrando em Psicologia Social pelo IP-USP. À escuta do não dito. Por uma sociedade SEM manicômios.
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